quinta-feira, março 20, 2014

Gira



Mesas redondas dispostas em semicírculo, ordenadas num cenário caótico. A pauta é rica em elementos e variantes sonoras; as vozes que planam no ar, mescladas com o som das portas rolantes dos sanitários, os passos atribulados dos viajantes, os sacos de plástico, os jornais e revistas, os telefones - “rec, rec, rec, rec”, “tutu ru tu ru turu”. Garrafas de água, de refresco, de cerveja; garrafas de vidro; garrafas de plástico.
Uma vez mais as vozes imperceptíveis de uma multidão que se arrasta a outros destinos. Agora a sirene de um carro patrulha; passos que se aproximam, outros que se afastam. Rostos anónimos. Imensos. Centenas… E o edifício gira…

Dos corredores adjacentes chegam mais rostos anónimos ao átrio central. Alguns divagam, outros apressam-se e outros ainda sentam-se numa dessas mesas redondas alinhadas em semicírculo. Quase sempre um mesmo objectivo: chegar a outro lugar, a um destino que não a este onde agora se encontram.  Alguns têm tudo planeado, outros improvisam sem lhes importar horários, vicissitudes meteorológicas ou demais certezas absolutas. Também estes se sentam nessas mesas redondas. Observam o ambiente envolvente, captam momentos com miradas fotográficas.



Há quem durma e há quem sonhe. Os que dormem são corpo presente. Os que sonham são a mais pura vibração de vida. São os criadores deste e de outros mundos. Mundos onde existem também mesas redondas alinhadas em semicírculo em edifícios ruidosos, onde se sentam homens e mulheres a sonhar com esses e outros mundos. 

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